Eu e os clássicos, os clássicos e eu. Há muito que queria ler o Lolita, mas andei anos há espera que fosse feita uma capa a meu gosto. Quando vi esta edição não pude esperar mais.
Agora conto-vos um facto engraçado sobre mim: todos os meus livros estão imaculados. A minha prateleira quase parece a Fnac de quão novos os livros parecem. Desde criança que sou assim. Sou capaz de ler da forma mais complicada só para não marcar a lombada do livro. Levo isto da leitura muito a sério.
Agora vem a parte em que dizem "mas este livro parece tirado do caixote do lixo...". Pois, isso deve-se ao facto de ele andar dentro da minha mala quase há um ano e já vos digo porquê.
O Lolita já inspirou muita coisa. Música, cinema, moda, tornou-se quase como um símbolo da jovem pêga inocente. E tudo começou com esta obra de Nobokov.
A história é contada por Humbert Humbert, um Europeu apaixonado pela literatura, que se sente atraído sexualmente pelo que chama de nymphets. Estas nymphets são jovens meninas (entre os 10 e os 15 anos), por isso sim, pode-se afirmar que H.H. é um pedófilo. No entanto, devido à sua enorme capacidade literária, o predador dá ao leitor uma visão romântica e vitimizada desta sua... digamos, preferência.
Após o final do seu casamento, H.H. muda-se para a América onde vai viver com Charlotte Haze e Dolores Haze, a sua filha de 12 anos. Para Humbert, Dolores é uma espécie de suprasumo das nymphets e rapidamente começa a ganhar interesse na jovem, adoptando-a como a sua Lolita.
Após casar com Charlotte para se manter perto de Dolores, H.H. começa a imaginar 1001 formas de se livrar da sua espora e manter os seus interesses em segredo e, por milagre, Charlotte morre atropelada.
É aqui que começa a verdadeira história do livro. Humbert foge com Lolita, que é quem dá o primeiro passo em tornar a relação entre os dois sexual (isso mesmo, ela não é nada inocente como se imagina) e passa anos a viajar com ela pelos Estados Unidos.
Apesar de Dolores ter sido culpada de iniciar o contacto sexual, com o passar do tempo H.H. começou a abusar dela sexual, a fazer chantagem e mantém-na em cativeiro.... até que Lolita escapa.
O livro é escrito de forma genial. Para começar a capacidade de romanização do narrador é tanta que leva o leitor simpatizar com o predador. Devo admitir que isto me fez imensa confusão no inicio. A forma como H.H. descreve as crianças por que se sente atraído, por exemplo, metiam-me nojo. No entanto, não era capaz de deixar de gostar dele. É uma personagem super irónica, inteligentíssima e, como ele bem o sabe, charmosa.
Algo que também não estava à espera era o facto de ficar a odiar a vítima. Desde inicio que é perceptível que a Lolita tem bem noção do efeito que tem em H.H. e aproveita-se para manipulá-lo para os seus próprios fins. Além disso, aos 12 anos, ela admite a Humbert já teve relações com um rapaz no campo de férias e, como já mencionei, é ela quem dá o primeiro passo em tornar a relação com o seu padrasto sexual. Fora isso ela tem um temperamento detestável.
Há pequenos detalhes que legitimam o facto de esta obra se ter tornado um canon literário. As temáticas que retrata, por exemplo, são fantásticas. A ironia, é apenas uma dela. Além do tom do narrador ser altamente irónico, toda a história e o seu desfecho são pura ironia do destino.
Outro tema bem notável é a incompatibilidade da cultura Americana e da cultura Europeia. É literalmente uma história de fascínio mútuo mas onde não há compreensão. A história de "amor" de Humbert e Lolita é apenas um símbolo para a Europa e a América.
Um detalhe que me deixou apaixonada foi o facto de o livro abrir e fechar com a mesma palavra. O título do livro. O nome que Humbert quer imortalizar: Lolita.
Posso ainda deixar aqui outro detalhe sobre mim: a primeira coisa que leio quando compro/começo a ler um livro é a última frase. E a última frase desta obra é de génio.
Então, se o livro é assim tão brilhante, porque ficou na minha mala durante quase um ano?
Porque é altamente descritivo e eu odeio livros demasiado descritivos. As partes das viagens, por exemplo, eram um pesadelo para mim. Era só narração e pouca acção e isso não me cativa, tem de haver mais equilíbrio.
Outro detalhe que me fez distanciar do livro foi o excesso de referências literárias. Por vezes sentia-me super ignorante durante a leitura e nem sempre tinha paciência ou disponibilidade fazer pesquisas. Havia algumas que apanhava, outras que lá cheguei mas há algumas que ainda hoje não faço ideia do que querem dizer. E isso irrita-me. Muito.
Veredicto final (aka a única coisa que vão ler porque o texto está muito grande)
- Apesar de me ter levado 300x o tempo que levo a ler um livro normalmente, o Lolita é uma obra literária que merece a 100% o estatuto que tem.
- Vale a pena ultrapassar as páginas altamente descritivas e sem acção para chegar ao climax.
- Vale a pena saber o porquê do termo Lolita ser um ícone para os dias de hoje.
- Mais que tudo, vale a pena ler um livro que nos põe a pensar e que puxa tanto pelas nossas emoções.
- Pode levar muito do vosso tempo, mas compensa o dobro.
Já leram o Lolita? Preferem clássicos ou literatura actual (não uso moderna para não se confundir com o movimento)? ♡
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